Nas lojas as vitrines começam a ser cobertas de verde e vermelho, dourado e prata, bolas coloridas pendem do teto, guirlandas, velhinhos de barba branca, pele rosada e roupa vermelha surgem sorridentes aqui e ali. Ela olha em volta. Nada ali lembra o Natal.
A casa bagunçada, os livros espalhados pela mesa, louça na mesa, folhas por todos os lados, roupa de cama, tudo fora do lugar. Nenhum enfeite, nenhuma música, nada. Ela vê diante de si outros dias como aquele, em que tudo era diferente, em que a essa altura já haveria uma guirlanda na porta, o verde colorido de uma árvora num dos cantos da sala, planos surgindo, miniaturas modeladas peça a peça de dentro da caixa de lego, sorrisos, abraços, beijos, e a pergunta de sempre: "o que você quer de Natal?"
Hoje só há a bagunça da casa, planos vazios e o crescente sentimento de que está tudo errado, tudo perdido, tudo estranho. Pensa em como está vivendo, com quem está vivendo, pensa no que é essa pessoa com a qual vive. - É minha irmã.
O que é uma irmã? O que é um irmão?
Pensa que existem muitos tipos de irmãos. Existem os protetores, sempre puxando o outro pra perto da sua sombra acolhedora; existem os provocadores, sempre instigando, sempre irritando, sempre indo além e além do limite pra depois abraçar, beijar, e confessar que não vive sem o outro; existem os amigos, que estão sempre lá, pra uma conversa, um conselho, pra falar sobre aquele problema, pra acorbetar as mancadas quando são descobertas pelos pais; existem os competitivos, sempre brigando pra saber quem é o melhor, quem é o mais amado, quem é o mais inteligente, quem pega mais gatinhos ou gatinhas, quem fica primeiro com aquele partidão, sempre lutando pelo primeiro ou o último elogio do dia; existem aqueles que amam uns aos outros, existem aqueles que acham que se amam; aqueles que acham que amam; aqueles que acham que são amados...
Aqueles que são indiferentes.
Pensa que cada dia mais parece mais evidente que seu caso não é o dos irmãos amigos, nem o dos irmãos protetores, nem qualquer outro... É no mínimo o dos indiferentes ou o dos que pensavam que eram amados, e amavam sempre. Como as coisas vieram parar aqui? Será que alguém imaginava que era este o fim de tudo?
Não ela. Em nenhum momento. Nem nos segundos posteriores à revelação, nem nos dias, semanas, meses, anos arrastados na luta, nem em todas as tardes e noites em que tudo parecia perdido, em que a dor tornava-se transtornante, nem quando diminuiu o peso, nem quando afinou o rosto, nem quando rareou o cabelo, nem quando enfraqueceram os dentes, nem quando o cheiro de infecção e fim tomou conta da casa, nem quando a voz sumiu, nem quando os olhos, por dias seguidos perderam o brilho... Nunca. Jamais. Nem quando os pés ficaram frios, nem quando os pesadêlos pareceram mais reais que a própria realidade, nem quando os resultados tornaram-se mais e mais negativos, nem quando houve a internação, nem quando houve a cirurgia, nem quando houve a volta pra casa, sem esperanças, nem aí ela pensou que fosse esse o fim. Nem quando lhe deram a notícia final, nem quando ela viu, após o susto, após o choro, após a negação, após o medo, nem aí ela acreditou.
Mas e então?
O que restava dos dias passados ao lado da cama, o que restava das caminhadas à praça, o que restava dos dias, semanas de curso? O que restava dos sorrisos, o que restava dos planos? Era assim que terminariam todos os planos? Da casa, da loja, da vida? Do natal? Dos 21 anos? Dos 46? Dos netos? De todas as broncas, de todas as piadas, de todas as estragações de vó pros netos? Do casamento, ou apenas do marido? Da gravidez das filhas? Da formatura? Era isso que restava? Era o que restava após tanto não pensar, após tanto acreditar, após tanto repudiar este fim, era este o fim.
E o que restava?
Restava acreditar.
Acreditar que tinha sido melhor assim, acreditar que as coisas tinham jeito, acreditar que haveriam outros natais, outros aniversários, outros verões, formaturas, que ainda assim haveriam netos e casamentos e maridos, que ainda assim haveria a vida. Acreditar que ainda haveria vida. Acreditar que haveria vida.
Restava animar-se com as lágrimas, restava arrumar a casa, restava a esperança de que ao pendurar a guirlanda na porta a memória se reanimaria, o coração se aqueceria só com a memória, sem o abraço. Acreditar que as coisas iam melhorar e que valia a pena seguir. Acreditar que vale a pena seguir. Acreditar ainda havia o que viver.
Acreditar que o que há dentro de nós é realmente mais forte e mais duradouro que o resto. Acreditar que não era o fim.
Acreditar
Eu preciso acreditar
Eu vou acreditar
Eu tenho que acreditar
Eu acredito
Eu acredito
Eu tenho esperança de que eu acredito
Eu acredito
Eu acredito
Eu acredito, eu acredito, eu acredito.
Ainda há... ainda há você aqui, ainda há o que viver aqui, ainda há vida, ainda há natal e eu acredito.
Eu acredito.
Eu acredito.
Que ao pendurar a guirlanda na porta, renovo o que viver, renovo a fé, renovo a crença, e você vence, dentro de mim, como eu venci, como eu acreditei que seria.
Eu acredito, que ao pendurar a guirlanda, você vem comigo, e a vida vale a pena.
It's Christmas again, momy.
What do you want for Christmas? All I want for Christmas is you in my heart, as you are and will always be.
I love you. Aishiteru, Namaste, Sleep tide.
Merry Christmas.