Sunday, November 07, 2010

A solução é censurar o Brasil

"O conteúdo de Lobato dever ser considerado 'racista' e 'perverso'" - Ministro da Secretaria de Igualdade Racial Eloi Ferreira de Araújo.

O senhor responsável pela citação acima e Antonio Gomes da Costa Neto, servidor da Secretaria de Educação no Distrito Federal, são os responsáveis pelo provável banimento de Monteiro Lobato da lista de autores lidos nas escolas públicas do Brasil. Eu me pergunto como é possível que pessoas de grau cultural tão baixo ocupem cargos públicos em nosso país. Opa... Acho que não posso me perguntar isso. Mas me pergunto se é possível que nós permitamos que tal absurdo se concretize.

O mundo anda mesmo louco. Na França, querem proíbir que mulheres de decendencia árabe usem a burca e aqui, para não levar o preconceito racial para dentro das salas de aula querem proibir os alunos de ler Monteiro Lobato. Aonde foram parar medidas simples como o debate e o diálogo? De que caixa de pandora escapa esse vento sinistro da censura, do cale-se, do "isso não pode ser mencionado". Será que por não ler Caçadas de Pedrinho os alunos das escolas públicas do Brasil não vão deixar de notar a diferença física que existe entre eles? Será que não lendo esse e outros livros eles vão deixar de notar que uns são negros, outros brancos, alguns índios ou descendentes de índios ou de chineses, ou de japoneses, ou de alemães ou de qualquer outra etnia? Claro que não. Tão certo como notar que esse é menino e aquele é menina eles vão notar, cedo ou tarde, que esse é mais moreno e aquele é mais claro. Proibir a leitura de texto tão rico não vai adiantar de nada. Discutir o momento histórico, discutir o significado do que está escrito, isso sim, vai fazer diferença.

Disse o senhor Antonio Gomes da Costa Neto que quando Monteiro Lobato escreveu que Tia Anastácia subiu em uma árvore "como uma macaca de carvão" ele estava sendo racista. Será que esse homem não teve aulas de interpretação de texto? Será que ele não sabe que os macacos são os animais de maior destreza ao subir em árvores? Será que ele não sabe que "de carvão" é aí um adjetivo qualitativo como seria "carmim" ou "de sangue" se estivessemos falando de algo vermelho? Ora... A cor da pele dos africanos e seus decendentes é negra/preta/marrom bem escuro ou não? Assim como a pele dos índios é avermelhada, assim como a pele dos europeus é clara, às vezes transparente e mais aproximada da cor branca ou não? Se assim for, temos que proibir todos os textos em que disserem que alguém tinha a pele clara e branca como porcelana. Temos que proibir todos os textos em que usem cores e os nomes das cores para falar de pessoas. Ora, pelo amor de Deus!!!

O Brasil foi um país em que se usou mão de obra escrava sim! E não só de negros! De índios! De imigrantes europeus! De nós mesmos! Quantos de nós não são escravos ainda hoje, seja nas fazendas clandestinas, seja nas grandes cidades onde trabalhamos 44h por semana por um salário que NÃO cobre metade das coisas que segundo a CONSTITUÍÇÃO deveria cobrir, como SAUDE, LAZER, MORADIA, EDUCAÇÃO. Calar, proibir, censurar não vai ajudar em nada. Não melhorar em nada a taxa de racismo ou qualquer outro tipo de preconceito em nosso país. É preciso diálogo. É preciso medidas culturais e socias. É preciso um movimento que tire as pessoas da miséria de modo dígno porque não é porque há racismo no Brasil que a grande maioria das pessoas pobres são negras. É porque nós fomos um pais de economia escravocrata e até hoje não se fez ou se fez muito pouco para dar dignidade e permitir a sustentabilidade dos descendentes de escravos. A nossa lei áurea só fez expulsar os negros das senzalas e casas senhoriais. Não deu a eles emprego ou condições de se sustentar e viver.

Brasileiros, servidores públicos, ministros, senadores, deputados, homens, mulheres e crianças... Não dêem as costas para o nosso passado. Não calem as poucas vozes que tiveram a coragem de se lançar aos céus desse país. Ouçam, reflitam, debatam, discutam, aprendam, mudem, tomem atitudes construtivas. Nós não precisamos de mais ditadores ou censuradores. Precisamos de voz, de pensadores, de mudança.

É com esperança que encerro esse post. Que existam por essas estradas pessoas com cultura, discernimento, com voz para falar sobre as coisas boas e ruins do nosso país e ajudar a melhorar o que já é bom e a concertar o que é ruim.

Namaste.

Saturday, November 06, 2010

Padecendo no paraíso - 1

Todas as meninas que brincam de boneca sonham com o filho perfeito. Todas as adolescentes que escolhem 6 nomes diferentes, três de menina e três de menino sonham com o filho perfeito. Toda mulher que caminha pela rua inconscientemente observando toda criança que vê pela frente sonha com o filho perfeito e tem certeza absoluta que o seu filho jamais usará aquela fantasia horrível de personagem de desenho animado, em hipótese alguma se jogará no chão por causa de um sorvete ou brinquedo e nunca, jamais, vai chorar descontroladamente dentro de um transporte público. Elas também têm certeza que não farão barganhas do tipo "se você fizer isso, eu faço aquilo pra você" e estão 100% seguras de que não serão mães paranóicas que checam cinco vezes por noite se o filho ainda está respirando.

Toda mulher que tem filhos vê todas essas ilusões ruírem até o segundo ano de seu filho ou filha. Até lá, você já vai ter chorado juntou ou mais que ele ao dar uma vacina, já vai ter passado metade da noite ao lado do berço verificando a respiração dele; já vai ter corrido atrás dele dentro do restaurante sentindo as bochechas queimarem de vergonha e indignação; já vai ter entrado em pânico quando ele se jogou no chão no meio do supermercado e amaldiçoado a si mesma por anos atrás, ter olhado aquela mãe do shopping com desaprovação e feito "tsc tsc tsc"; já vai ter inchado de orgulho quando ele disse mamãe e ficado ou super enciumada, se a primeira palavra foi "papai" ou absolutamente besta se foi "banana"; já vai ter criado cinco métodos diferentes para dizer "tchau" quando tem que sair sem ele e continua sentindo vontade de chorar e desistir de sair quando o vê chorando porque você está indo embora; já vai ter torcido pra ele crescer/andar/deixar as fraldas logo e se arrependido profundamente.

Ser mãe é isso. Reiventar o mundo e a si mesmo diariamente, milhões de vezes por minuto e - caso você seja uma pessoa mentalmente saudável - amar cada segundo.

.a

Os quentes raios de sol penetravam sem convite através da janela, iluminando o chão empoeirado, a cômoda bagunçada, as roupas emboladas no chão e os sapatos empilhados perto da porta. Intruso. O sol era um intruso impertinente em seu mundo escuro e frio. Como ele ousava continuar brilhando? Como o vento podia ainda estar soprando? O que havia de errado com o mundo, com o planeta, para que tudo continuasse girando, se movendo, os dias iniciando e findando como se nada tivesse acontecido?

Ela cobriu o rosto com o travesseiro e deu as costas para a janela. Não queria ver o sol ou as núvens, ou sentir a brisa que entrava trigueira pela janela semi-aberta. Não queria ouvir os malditos pássaros que trinavam na copa da árvore próxima. Não queria atestar o fato de que "a vida continuava". A vida não podia continuar. Não era certo. Não era possível. Não quando o vazio em seu peito era tão sufocante. Não quando o chão sob seus pés parecia esfarelar e todas as suas certezas tivessem se tornado dúvidas. Não. Não era justo. O mundo inteiro devia estar em luto junto com ela. O mundo inteiro devia se afundar em um inverno chuvoso e cinza, frio e melancólico, como o que ela sentia dentro de si. Como era cruel que lá fora o sol brilhasse intensamente, a brisa corresse insensata e fresca, o mundo girasse e ninguém se desse conta do que acontecia ali dentro. Ela queria dormir. Descansar. Queria mergulhar nas trevas de seu quarto e não acordar nunca mais.

(...)

Thursday, November 04, 2010

Outono

Eu vejo o verão em minha porta
mas dentro de mim reina outono

Eu vejo o inverno soprar nas janelas
mas dentro de mim reina outono

Eu vejo a primavera beijandos os jardins
mas dentro de mim...
Ai... Dentro de mim, reina outono

E não posso usar meus vestidos floridos
não posso usar meus casacos pesados
não posso usar meus sapatos azuis

Pois dentro de mim reina outono.

Gabriele Fascino.

Apenas mais um

Qual será o misterioso gatilho que ativa a transferência das idéias que navegam em minha mente para o papel? Como devoradora de livros que sou tenho visto ultimamente textos dos mais variados... Desde os brilhantes aos medíocres.
Mas como é possível que tantas pessoas ao redor do mundo sejam capazes de fazer essa transferência com tanto sucesso e eu, que tenho tantas idéias vagando em barquinhos em minha mente turbulenta, não consiga?
Ah... Aqui vou eu divagando novamente... Estou cansada de divagar... Eu quero que as letras se juntem e conectem em palavras e frases conexas, coesas e significativas. Eu quero um bestseller, um texto encorajador e inspirador... Argh... Medíocre, medíocre, medíocre...
De que valem os desejos e sonhos sem o bendito gatilho que os fará realidade?

Thursday, September 16, 2010

Redescobertas

Mais uma vez o fundo branco me instiga e desafia. No fundo, a paixão de meu sogro por seus textos cheios de idéias e vazio de conectivos me desestabiliza... Aonde foi a minha paixão pelas letras e palavras? Aonde foi o meu desejo de manchar de negro ou azul a brancura singela das páginas e dos pixels? Não me lembro.

Talvez eu devesse voltar a estudar a arte de escrever e versar. Talvez eu devesse simplesmente exercitar por conta própria esses dedos que ainda lembram de cor a localização das letras no teclado suave... Talvez eu deva parar de dizer tantos talvez e precise voltar a realizar.