Ela acordou naquele dia sentindo nas costas uma dor que não exitia. Olhou a sua volta no quarto agora tomado por uma semi-escuridão ou semi-claridade, o reflexo dos móveis ainda turvos em sua retina cansada. Já era um outro dia.
Ela detestava acordar assim, como quem volta de um cochilo de dois minutos durante uma aula de equações no tempo que segue logo após o recreio. A cabeça pesada, os ossos doloridos, um nó gigantesco nos ombros... Estranho como as coisas parecem diferentes, parecem confusas, parecem alienígenas nos três primeiros segundos das manhãs recém nascidas, quando todos os seus neurônios ainda estão se readaptando à velocidade das conecções elétricas, as retinas ainda ajustando o foco para aquele mundo mais uma vez renovado pelos ares da noite.
Levanta. Do banheiro o som de água caindo denuncia que está não sozinha do lado luscido do mundo. Vai até a cozinha, toma um copo d'água, e já nos primeiros goles sente a dor do juízo no fundo da boca, como um grande martelo de juiz da vara criminalista pedindo silêncio antes de declarar sua sentença final contra o réu.
"- Eu declaro aos indivíduos aqui presentes, que teremos mais um dia de dores lascinantes, sendo deferido como medida de segurança que o réu seja submetido à um tratamento medicinal de dipirona sódica de quatro em quatro horas durante os próximos dias e ao longo do recesso desse tribunal, até que seja marcada a data de execução definitiva do caso!"
Mais uma vez, agora que os pensamentos estão finalmente organizados em sua mente, lhe vem, suave como um ditado velho, a verdade cada dia mais certa, eloqüente e adequada de sua nova teoria: se juízo fosse bom, seria a primeira coisa a nascer nas pessoas, logo nos primeiros anos, poupando-nos de muitas dores e de muitas lembranças, uma vez que ninguém se lembra das horrendas fisgadas causadas pelos dentes de leite ao brotarem consecutivamente da gengiva rosada de suas bocas ainda babentas e descordenadas.
Respira fundo. Infelizmente, muito ajuizadamente, ou não, alguém havia resolvido que haveria um dente pra nascer por último, que doeria como nenhuma outra coisa, e que por isso, seria, muito sabiamente, relacionado com um dos atributos mais raros da raça humana: o juízo. O qual só se forma mesmo depois de muita dor, quebrando a cabeça, o coração e outros membros ou órgãos dependendo do gosto do cliente...
Segue o comprimido levado pela correnteza esôfago abaixo. Quanto tempo até fazer efeito? Mistério.
Aqueles acometidos pelo juízo não tem felicidade matinal.
1 comment:
Os acometidos pelo juizo tem felicidade matinal se conseguem enxergar na vida algo mais do que uma rotina banal.
Que belo texto meu amor. Não é à toa que dentre minhas leituras prediletas na web esta o teu blogger e entre as minhas leituras prediletas na vida esta vc.
Cada vez melhor na prosa. Sempre achei que vc tinha jeito pra isso tb, apesar de sempre falar o contrario. Deus conserve esse teu talento, minha poetisa linda..
te amo.
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