Olhava pela janela para o céu pálido de março. Estranho como últimamente, dias assim pareciam inspirar seu clima no mesmo poço de torpor em que seus olhos mergulhavam logo que o ponto mais fundo de seu inconsciente tomava aquela ainda vaga e pueril noção do tempo e do dia do ano que era hoje.
Se levantou sem pressa, correu os dedos pelos diferentes botões amontoados uns sobre os outros na estúpida torre vazada em madeira onde empoleirava o computador. Abriu o editor de textos, puxou o caderno para o colo e começou a digitar, sofregamente, as palavras secas e estranhas que fundamentariam ou não a sua monografia.
Lembrava agora de quando era pequena, meio precoce, perguntando à sua Querida Poesia Roubada do Mundo o que era preciso para passar na faculdade, embora ainda estivesse na quinta ou sexta série, e achando graça do nome do trabalho final: MONOGRAFIA... Parecia Monograma e por muito tempo confundiu mesmo os dois, achando, obviamente muito estúpido que só se precisasse desenhar a primeira letra do nome num papel bonito para ter em mãos o tal e tão cobiçado objeto ao qual intitulavam CANUDO.
Sua Poesia Roubada. Era estranho pensar que não pensara nela todos os dias durante as últimas semanas, uma vez ou outra apenas, ao olhar para um canto bonito da rua, ou lembrar de uma música que costumava pairar em seus versos. Sua Poesia Roubada do Mundo. Alguns dias sem a noção de sua ausencia... e Hoje, logo Hoje, tudo isso assim, como turbilhão, como montes e montes de núvens turvando o céu, ameaçando chuva, temporal e trovoada.
Foi pro trabalho. Era estranho como as coisas funcionavam. Embora hoje fosse o dia da Sua Poesia, outra Poesia, talvez nem tão bonita é que tinha a possibilidade de ganhar um cartão. Um coração vermelho, com desenhos garatujados de criança... E para a Sua Poesia apenas a ameaça de chuva.
Não era verdade.
A verdade, embora parecesse tanto uma mentira, era que a Sua Poesia estava sendo recitada agora nos melhores salões de todo mundo, ao redor das melhores pessoas possíveis, feliz, embora preocupada, sorrindo embora, talvez, temerosa.
Mas aqui, onde as Poesias Roubadas e as Poesias Angelicais e Aladas não são recitadas, só restava a chuva. Os trovões em verdadeiros gritos, as gotas geladas em derradeiras lágrimas, porque não havia o som das rimas, não havia o jogo suave das sílabas e a divisão suave e craquelada das consoantes marcando o ritmo como tambores de anis...
Aqui havia apenas a pueril impressão vazia dos versos, a distante e apagada sensação do toque, a sufocante e inebriante pressão da ausencia, do vazio, da intacticidade.
Digam, como quiserem, que as Poesias são sempre lindas e estão para sempre felizes, bem, saudáveis e belas.
Digam, como quiserem, que as coisas são como devem ser, e estão melhor, por não ter outro jeito.
Digam, como quiserem, que tudo vai ficar bem...
Mas não digam, jamais, que isso remedia o toque que já não se tem, o perfume que não me se sente, ou a visão, real e tátil da única forma que desejarias no mundo todo.
Digam que, um dia, um inapressável dia, tudo vai voltar ao que era antes, mas não digam que é preciso acostumar-se a isso.
Mata ne. Once more... Mata ne.
1 comment:
SORRY!!! Passei aqui p/ te dar um HELLO! ' Sorry' pois não li o seu post... estou com preguiça e o soninho tá vindo, rs! No fim de semana ... pode deixar... eu leio! hahaieueue!
Bjx e não desapareça do meu flog. RS!
Edninha : )
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