Saturday, November 06, 2010

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Os quentes raios de sol penetravam sem convite através da janela, iluminando o chão empoeirado, a cômoda bagunçada, as roupas emboladas no chão e os sapatos empilhados perto da porta. Intruso. O sol era um intruso impertinente em seu mundo escuro e frio. Como ele ousava continuar brilhando? Como o vento podia ainda estar soprando? O que havia de errado com o mundo, com o planeta, para que tudo continuasse girando, se movendo, os dias iniciando e findando como se nada tivesse acontecido?

Ela cobriu o rosto com o travesseiro e deu as costas para a janela. Não queria ver o sol ou as núvens, ou sentir a brisa que entrava trigueira pela janela semi-aberta. Não queria ouvir os malditos pássaros que trinavam na copa da árvore próxima. Não queria atestar o fato de que "a vida continuava". A vida não podia continuar. Não era certo. Não era possível. Não quando o vazio em seu peito era tão sufocante. Não quando o chão sob seus pés parecia esfarelar e todas as suas certezas tivessem se tornado dúvidas. Não. Não era justo. O mundo inteiro devia estar em luto junto com ela. O mundo inteiro devia se afundar em um inverno chuvoso e cinza, frio e melancólico, como o que ela sentia dentro de si. Como era cruel que lá fora o sol brilhasse intensamente, a brisa corresse insensata e fresca, o mundo girasse e ninguém se desse conta do que acontecia ali dentro. Ela queria dormir. Descansar. Queria mergulhar nas trevas de seu quarto e não acordar nunca mais.

(...)

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